6/06/2008

De nossas misérias...

"...Já vos ouço, leitor. Estais dizendo: -E os amores de Jacques?... - Imaginais que não estou tão curioso quanto vós? Esquecestes de que Jacques gostava de falar, sobretudo de si mesmo? Esta é uma mania geral das pessoas de sua condição, mania que as tira de sua abjeção, que as coloca na tribuna e as transforma, de repente, em personagens interessantes. Em vossa opinião, qual o motivo que atrai a população para as execuções públicas? a desumanidade? Não, estais enganado: o povo não é desumano; se pudesse, arrancaria das mãos da justiça o infeliz do cadafalso ao redor do qual se reúne. O povo vai à Praça da Greve buscar uma cena que possa conar quando voltar a seu bairro; essa ou aquela, é-lhe indiferente, desde que lhe permita desempenhar um papel, o de reunir os vizinhos e se fazer ouvir. Promovei uma festa divertida na rua e vereis a praça de execuções vazia. O povo é ávido por espetáculos, corre a sua procura, pois se diverte quando deles usufrui e também se diverte com o relato que dels faz quando volta para casa. O furor do povo é terrível, embora não dure muito tempo. Sua própria miséria o torna compassivo: faz com que desvie os olhos do espetáculo de horror que procurou, com que se enterneça e volte para casa chorando... Tudo o que estou vos dizendo, leitor, aprendi com Jacques, confesso, pois não gosto de me cobrir de honra com a argúcia alheia. Jacques não conhecia nem a palavra vício, nem a palavra virtude; achava que nascemos felizes ou infelizes. Quando ouvia pronunciar as palavras recompensa e castigo, dava de ombros. segundo ele, recompensa era o encorajamento dos bons; castigo, o pavor dos maus. "Poderia ser de outro modo", dizia ele, "se não existe liberdade e se nosso destino está escrito lá em cima?" Acreditava que um homem caminha necessariamente ou para a glória ou para a ignomínia, como uma bola que tivesse consciência de si mesma seguiria ao longo da encosta de uma montanha; acreditava que, se fosse conhecido o encadeamento das causas e efeitos que formam a vida de um homem desde o primeiro instante de seu nascimento até o último suspiro, ficaríamos convencidos de que ele não fez senão o que tinha de fazer. Várias vezes eu o contradisse, porém sem vantagens nem frutos. Com efeito, o que se pode replicar àquele que vos diz: qualquer que seja a quantidade de elementos de que sou composto, sou uno; ora, uma causa só tem um efeito; sempre fui uma causa una; nunca tive de produzir senão um efeito; minha duração é, portanto, apenas uma seqüência de efeitos necessários. Jacques raciocinava assim, como seu capitão. A distinção entre um mundo físico e um mundo moral parecia-lhe desprovida de sentido. Seu capitão metera-lhe na cabeça essas opiniões, que extraíra de seu Espinosa e que sabia de cor. Segundo esse sistema, alguém poderia ser levado a pensar que Jacques não se regozijava, não se afligia por nada; mas isso não era verdade. Conduzia-se mais ou menos como vós e eu. Agradecia o seu benfeitor, para que continuasse a fazer-lhe o bem. Encolerizava-se com o homem injusto e, quando lhe objetavam que então ele parecia com o cão que morde a pedra que o feriu, dizia: "Absolutamente, não, não se pode corrigir a pedra mordida pelo cão; o homem injusto é modificado pelo cacete." Amiúde era inconseqüente, como vós e eu, e sujeito a esquecer sues princípios, salvo em algumas circunstâncias, nas quais ficava evidentemente dominado pela sua filosofia; então, ele dizia: "Isso tinha de acontecer, pois estava escrito lá em cima." Esforçava-se para previnir o mal; era prudente, embora tivesse o maior desprezo pela prudência. Quando o acidente acontecia, voltava ao refrão; consolava-se. Ademais, bom homem, franco, honesto, corajoso, apegado, fiel, muito cabeçudo, mais tagarela ainda e aflito, como vós e eu, por ter começado a história de seus amores sem ter praticamente nenhuma esperança de terminá-la. Assim, leitor, aconselho-vos a decidir e, a despeito dos amores de Jacques, conformar-vos com as aventuras do secretário do Marquês des Arcis. Aliás, eu o vejo, pobre Jacques, com o pescoço envolto num lenço grosso; com seu cantil, antes cheio de bom vinho, contendo agora apenas mezinha, tossindo, imprecando contra a hospedeira que deixaram e contra seu vinho de Champanhe, coisas que ele não faria se se lembrasse de que tudo está escrito lá em cima, até seu resfriado..."

Trecho de "Jacques, o fatalista e seu amo" de Denis Diderot

E por falar em misérias da vida...
Eu estou fora. Estarei mais fora ainda. Este livro trouxe comigo. Era para enviar a alguém. Já havia escrito a dedicatória -já resolvi isso, arranquei a página. Não mais enviarei. Não faz mais sentido. Fica com vocês este trecho acima. A miséria é minha e ninguém, mas ninguém mesmo tasca. Boa leitura, hipócrita leitor, meu semelhante. Se tiveres paciência, óbvio. Quem tiver -paciência, leia o livro inteiro. Eu recomendo, como diria o Roger "cadê a farofinha" Moreira.

Deixo vocês também com outro trecho. O trecho de "Hannah and her sisters" do Allen. Isso é muito bom.



Agora, o mesmo trecho em português. Nem comentarei a versão, mas a voz do Allen. Puxa...



E este trecho da poesia de E. E. Cummings -em italianíssimo:



E esta cena de Manhattan -só achei em italianíssimo:



Adendo: musiquinha não pode faltar para o meu momento solene. Agora é bye, bye mesmo. Volto assim que puder:

4 comentários:

Sabesselá Quem disse...

Olá Marie,

Quanta coisa gostosa achei por aqui... Um trecho de "Jacques, o fatalista e seu amo"... super instigante.
Marie, será que antes da pessoa encarnar botam um chip com nosso detino?
Essa poesia trouxe minha alegria pra mais perto. E ela me traz sempre uma doce lembrança... e permite sonhar com um lugar onde eu quero estar. Não conhecia em italiano. Linda, " em algum lugar onde nunca estive...".
Caso contrário vou ficar muito, muito triste...
Vou rever esse filme, deu vontade.
Sabe, eu estava precisando dessa dose de alegria.

Beijo.
:)

Marie Tourvel disse...

Instigante esse Jacques, não é, sabesselá (cadê o maldito ponto de interrogação... ah, achei)? Quanto ao chip, não, não. Fazemos nossas próprias burradas aqui mesmo. Nada estava escrito. Lembra de meu post "É só o acaso, estúpida"? Pois é, pois é. Poesia é sempre poesia e consegue me amolecer um pouco. Me dá um golinho dessa dose de alegria, sabesselá? Obrigada. Sua presença aqui é sempre agradável, viu? Beijo :)

Roger disse...

Espero sinceramente que esse dublador do Allen já esteja aposentado.

Marie Tourvel disse...

Oi, Roger, querido. Eu também espero, viu? Que vozinha idiota, como se Allen fosse um palhaço qualquer. Ora, ora, ora. Se ele não estiver aposentado, cortamos a língua dele. Gostoso recebê-lo por aqui mesmo que eu esteja looooonge. Beijos.