6/21/2008

Pede pra sair, Hamlet

Fui à estréia de Hamlet com o Wagner "Capitão Nascimento" Moura. Está bem, é injusto ter o Wagner Moura como o eterno Capitão Nascimento. Ele é um bom ator. Algumas vezes, afetado. Em muito mais vezes, no ponto certo. O fato é que a peça não é a oitava maravilha do mundo. Você começa a se incomodar com a duração num determinado momento e quando a duração de Hamlet incomoda, não pode ser bom sinal. Mas, no geral é digerível. Confesso que teve momentos em que realmente achei que Hamlet iria dizer: "Pede pra sair, Claudius", mas confesso, também, que isso é uma coisa minha. O diretor da peça, Aderbal Freire-Filho, diz que Hamlet é pra ser dito, não lido. Eu gosto de ler Shakespeare. Porque dependendo de quem diz Shakespeare, pode não significar absolutamente nada cada frase, ou tudo -está bem, está bem, critiquem meu momento Caetano. Leiam essas frases:"O hábito, esse demônio que devora todos os sentimentos" ou "Necessito de sangue em vez de lágrimas". Dependendo de como forem verbalizadas, caem num vazio. O "ser ou não ser" de Moura ficou bom, não excelente, mas bom. Ele tentou dar um ar de despojamento ao texto, no que se saiu muito bem, mas não necessariamente que seja o ideal. Não dá para ser lá muito despojado com isso:

HAMLET: Ser ou não ser – eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias – e, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir; só isso. E com o sono – dizem – extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável. Morrer – dormir – Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte quando tivermos escapado ao tumulto vital nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão que dá à desventura uma vida tão longa. Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando, e o achincalhe que o mérito paciente recebe dos inúteis, podendo, ele próprio, encontrar seu repouso com um simples punhal? Quem agüentaria fardos, gemendo e suando numa vida servil, senão porque o terror de alguma coisa após a morte – o país não descoberto, de cujos confins jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos, a fugirmos pra outros que desconhecemos? E assim a reflexão faz todos nós covardes. E assim o matiz natural da decisão se transforma no doentio pálido do pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de ação.

O Claudius do Tonico Pereira é bom. Mas eu sempre olho para o Tonico Pereira e lembro, ora do Zé Carneiro do Sítio do Picapau Amarelo -na época em que o sítio era aquela bananada de goiaba mais bacana, ora do Mendonça da Grande Família. Isso é só para provar que minha geração coke é totalmente televisiva. Uma desgraça, por sinal. A Marie que vos escreve lia Shakespeare e num intervalo e outro assistia ao Chacrinha, ao Bolinha, ao Raul Gil, ao Silvio Santos. Essa gente bronzeada que tem seu valor no cenário bananeiro.

Eu gosto do Hamlet do Kenneth Branagh. Este filme é bom, sim. Podem achincalhar se quiserem, mas é bom. Assim como gosto da Ophelia da Kate Winslet -gosto desta atriz, no mesmo filme.

Não sei fazer crítica de teatro, deixo isso para a boa, velha e bárbara Barbara Heliodora, mas digo o que vi, minha impressão, por mais capenga que ela seja. Mas ainda assim, recomedo que assistam à montagem do Hamlet no teatro FAAP em São Paulo. Ler ou assistir algo do tal do William sempre vale a pena porque a alma... yada, yada, yada.

Deixa eu continuar minha releitura de The Great Gatsby. Sei lá eu o motivo, resolvi reler este livro. Aliás, sei, sim. Peguei a esmo na estante. Eu deveria estar agora numa palestra sobre o "enigma" Bruno Tolentino, mas não fui. Prefiro ficar em casa e ler Bruno Tolentino. Me deixa entendê-lo como eu quero, é bem melhor assim.

Ah, e a Marie manda os parabéns ao moço que é um grande amigo. Hoje é aniversário dele e já mandei os parabéns através do "yogurte" e do blogue dele. Ele merece. Graaaaaande leitor de Shakespeare, ele. E graaaaaaaande telespectador de bananices. Um grande beijo. Uma musiquinha de presente pra ele cai bem, né? Eu sei que faz pouquíssimo tempo que postei essa música, mas ela é tão boa, mas tão boa que merece que eu repita. Mesmo porque hoje descobri que é aniversário do Ray Davies, também, do The Kinks. "You keep all your smart modern writers -give me William Shakespeare". Isso é genial e foi o aniversariante de hoje quem me mostrou. Não o Ray, mas o Ruy.

The Kinks - 20TH CENTURY MAN

8 comentários:

ruy disse...

Thank you, querida! Beijo grande do Ray, isto é, do Ruy. ;)

Marie Tourvel disse...

Oba! O Ray, digo, o Ruy, trouxe um beijinho de goiaba por aqui. Parabéns, lindo. É o que sempre diz o Galvão Bueno: rumo aos 3.9. Beijos!

Shi disse...

Minina, fui lá no Ruy, deixar parabolas, dava erro, erro, erro! Putitanga, vou acabar ficando traumatizada com esse boicote à minha entrada nos blogs, ó! kkkkkkkkkkkkkkkk :-S
Bjo, Marie, bom finde!

Marie Tourvel disse...

Oi ShicaMaria, minha querida. Hoje está dando um monte de pau na internetchi por aqui. Mas acho que no meu caso, é porque sou uma anta mesmo... Dá uma passadinha no Ruy, sim. Gente boa como ele merece sempre nossas reverências. Assim como você, né? Beijos, querida.

Rover disse...

São Paulo, São Paulo... pras bandas de cá, só "pirô piraquara"... "teatro do oprimido", "do, pelo e para" o povo, essa entidade abstrata que é culpada pelo atraso cultural dazelite, et cetera...

Detesto gente que fala o q a gente tem q fazer: "Shakespeare é pra ser dito". Eu também gosto de ler, so fuckn' what? E, confesso, em relação a teatro, tô mais pra isso aqui, ó: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/avesso/2007/03/o-avarento.html

beijo.

Marie Tourvel disse...

Teatro do oprimido do Augusto Boal é de ph... com ph mesmo. Também detesto essa gente bronzeada que fica vomitando regra. Eles que vão acasalar lá em Quixeramobim. Eu assisti ao O Avarento com o Autran. Muito bom mesmo, viu, Rover? E você, um queridinho da Marie. Muitos beijos.

Léo e só disse...

oi Marie.

Muito legal os seu olás sobre a peça. Resolvi comentar, mas ficou tão grande que tomei a liberdade de postar do seu texto lá no blog ( gosto muito não de usar o pronome possessivo)

abs

Marie Tourvel disse...

Pois você, Leo, querido, pode fazer comentário grande, pequeno, médio, que será sempre bem recebido. Adoro seus comentários, mas já que fez isso no seu blogue, vou correndo pra lá. Adoro seus posts, né? Um beijo