10/02/2008

Who´s Who

Vocês já devem ter sentido vergonha alheia, claro. Alguns leitores desta pocilga já devem ter sentido vergonha por mim. Muitos posts meus devem ter este efeito em algumas pessoas. Tudo bem, não ligo. Eu sinto a mesma vergonha por outros tantos. Mas senti uma vergonha danada quando vi que o Efelentífimo lançou a mais nova reforma hortográphica bem no centenário do Machadão. Entendem o imbróglio? Nem preciso explicar, não é?
Machado de Assis é um dos meus escritores preferidos. Até aí não estou dizendo nada demais. Ontem, conversando com uma grande amiga ela me disse: Machado era um realista francês, isso sim. Voltei para casa pensando nisso. Machado era do mundo sem sair do Cosme Velho. Sem sair do seu Rio de Janeiro. Em suas obras viajava pelo mundo sem sair do lugar, sem nunca ter conhecido outro lugar. Conheço uma pessoa assim. Ele viaja pelo mundo inteiro através de sua erudição. Se saiu alguma vez do Brasil? Pode até ser que já tenha saído, mas ele me lembra muito o Machadão. Ele chegou a se assustar com minha alma libertária um dia. Sem verbalizar. Mas eu o entendo tão perfeitamente, e ele sabe disso, que prefere me evitar. É que talvez ele tenha sentido vida em mim. E ele não pode sair do Cosme Velho dele. Mas mesmo assim mando um beijo para o meu Machado de Assis contemporâneo. E um poema de Auden:

Who´s Who

A shilling life will give you all the facts:
How Father beat him, how he ran away,
What were the struggles of his youth, what acts
Made him the greatest figure of his day;

Of how he fought, fished, hunted, worked all night,
Though giddy, climbed new mountains; named a sea;
Some of the last researchers even write
Love made him weep his pints like you and me.

With all his honours on, he sighed for one
Who, say astonished critics, lived at home;
Did little jobs about the house with skill

And nothing else; could whistle; would sit still
Or potter round the garden; answered some
Of his long marvellous letters but kept none.

Tradução de José Paulo Paes:

Uma biografia de tostão dar-te-á todos fatos:
Como o Pai surrou-o, como ele bateu em retirada,
Quais as pelejas da sua mocidade, quais os atos
Que o tornaram em seu tempo figura tão afamada;

Como lutou, pescou, caçou, trabalhou noites seuidas,
Como, tonto, escalou novos picos, deu seu nome a um mar:
Escrevem mesmo alguns dos estudiosos da sua vida
Que, como eu e tu, amor fazia-o em prantos desatar.

Com todas as suas honrarias, ansiava por uma
Que em casa se encontra, dizia a crítica boquiaberta;
Fazia pequenos consertos domésticos com jeito

E só; sabia assobiar; ficava sentado satisfeito
Ou zanzando à toa pelo jardim; respondia a certas
Longas, esplêndidas cartas, mas não guardava nenhuma

8 comentários:

Fernando Sampaio disse...

Marie
A ironia da situação é verdadeiramente machadiana.
Um presidente que acha que nunca ter lido um livro é uma qualidade assinando uma estrovenga como essa reforma ortográfica...
Vamos de mal a pior.
A vergonha é nossa.
Beijo

Marie Tourvel disse...

Pois é, Fernando, querido, é tudo tão sureal, não é? Vivemos numa terra cheia de inversão de valores. E eu continuarei a usar meus tremas. ;) A vergona é nossa mesmo!

Beijos!!!

Philippe disse...

Oi Marie!
Muito bom quando você posta estes poemas da língua do Bill. Eu só desgrudo deles quando os entendo completamente.
E por falar em sair do Cosme Velho, logo, logo saio do meu.
Um beijo.

Marie Tourvel disse...

Oi, Philippe, querido. Gosta de poesia, não é?
Diz que vem para a terra dos tinhosos da garoa, diz. (*Marie pedinte mode on*). Será uma farra, garanto a você. Beijos!

QuincasB disse...

nothing else, just whistle; bonjour, marie

Marie Tourvel disse...

Quincas,

;)

Bisous e bonjour.

ana v. disse...

Ah, Marie, por cá o "desacordo" ortográfico também tem feito correr muita tinta... por mim, continuo a escrever como sempre. É uma forma de protesto em relação a este absurdo que tem muito mais de comercial que de cultural.

beijos

Marie Tourvel disse...

Apoiadíssimo, Ana, querida. É muito mais comercial mesmo. Disso estou fora. Continuo com meus tremas. ;) Beijos!