11/04/2008

Pocket Classic (3)



Comigo é assim: pediu, tocou, ganhou. O moço lá de Portugal pediu-me na semana passada que eu falasse para nossos amigos bilionários* sobre o crassicão Dom Quixote de La Mancha (não confundir com o desenho animado Dom Pixote, ok?) do espanhol Miguel de Cervantes.(Vai com musiquinha e tudo). Eu confesso que demorei quase 6 meses para ler este livro inteiro. Eu tinha 18 anos. Era uma edição da Abril Cultural linda. Capa dura verde com letras douradas. Papai me deu com dedicatória e tudo. Há pouco tempo eu presenteei um amigo com esta minha edição especial. Talvez ele nem seja tão meu amigo assim, hoje enxergo isso. Pressenteei tantos amigos com edições em que papai me escrevia alguma dedicatória. Muitos deles talvez nem dê bola. Tenha jogado o livro em qualquer canto, sei lá. (Marie poética mode on) Mas quando presenteei esses amigos foi como se estivesse dando parte de minha alma (Marie poética mode off).
Chega de papo furado e vamos ao que interessa, pois meu amiguinho bilionário não pode perder tempo. Tempo é dinheiro, não é?
Dom Quixote foi escolhido o melhor livro de todos os tempos. Tem razão de ser, viu, bilionário, querido. Vamos ao resumão:

História de um doidão que lia muito romance sobre cavalaria em uma Europa saindo da Idade Média e decide se armar cavaleiro e ir combater as injustiças do mundo em nome de seu amor imaginário, Dulcinéia Del Toboso, e acompanhado de Sancho Pança, seu fiel escudeiro. Quixote era “O cavaleiro das tristes figuras”. Ia pra sua luta, tomava um cacete, voltava pra casa, ia pra luta, tomava um cacete, voltava pra casa... enjoou? Tem mais, muito mais.

É um resumão só para você se situar, amiguinho. O mais importante é o que dizer nas rodinhas dos intelequituais e não dar vexame. Eles vão dissecá-lo a respeito do motivo que levou um livro desses ser tão importante. Você vai dizer que é uma sátira sensacional que Cervantes fez aos romances de cavalaria. E que ao mesmo tempo é de um lirismo sem tamanho. Diga que a insanidade de Quixote virou poesia. Fale um pouco do indolente Sancho Pança. Diga que na segunda parte do livro é muito divertido vê-lo como governador da ilha imaginária e cheio de ambição. Eles muito provavelmente perguntarão a você o motivo que levou Cervantes a escrever este livro. Arrisque-se, pero no mucho. Diga que o processo intelectual de elaboração do Quixote soa como uma espécie de metáfora à decadência espanhola. Se perguntarem por que considera isso, diga que é porque o pobre fidalgo não quer menos do que realizar proezas, mas sem os instrumentos para levá-las a bom termo. Não entendeu nada? Decore, amigo, decore. Você pode dizer também que há uma profusão de temas históricos no Quixote, há também muita sofisticação na abordagem dos mesmos. Já falou demais, não invente. Diga somente isso o que escrevi que está de bom tamanho. Se eles quiserem falar sobre a Dulcinéia, fuja. Não entre em barca furada. Na realidade eles querem saber se você cairá na pieguice. É uma espécie de pegadinha, entende? Olhe para frente e diga que precisa falar com um amigo sobre a última releitura que fez de Diderot. Se perguntarem qual Diderot que releu, diga sem pestanejar: "O Passeio Dos Céticos". Você ouvirá o pensamento dos cabeças pensantes: "Oh!!!!!!!". Peça licença e não esqueça do sorriso. Soará meio sarcástico para o amiguinho intelequitual. Eles gostam disso. Vá em frente.

Até a próxima semana, querido billionnaire.

*Milionário é pobre. Tem que ser bilionário. No mínimo.

(Recebi muita reclamação, ainda que de forma velada, de amigos intelectuais por e-mail. Vejam bem, não eram reclamações do tipo: "você é uma anta" ou "como você é rasa" (na real eles estavam doidos pra dizerem isso mesmo). Eles falavam: "esta obra é muito importante" ou "esta obra mudou a minha vida". Entendam uma coisa: ler não torna ninguém melhor ou pior. A literatura não forma caráter. Caso contrário, Hitler seria a melhor das pessoas por ter lido Flaubert, não é mesmo? Ler é um dos prazeres da vida, não é nem o primeiro, pois sou perfeitamente consciente de que há prazeres muito maiores que este. Mas nosso amigo bilionário não tem tempo para esse tipo de prazer, porque em seu tempo de férias ele prefere esquiar em Aspen a ler crássicos da literatura. Por tudo isso acatei uma idéia do meu querido Fernando Sampaio do excelente blogue Lumière. Ele sugeriu que eu fizesse uma série para os intelequituais aprenderem a ler os best sellers do tipo Dan Brown, Bruna Surfistinha, Sidney Sheldon, Paulo Coelho. Contei ao meu amigo Philippe do blogue Sedivagar e ele me deu a idéia para o nome da nova série. Vai se chamar "Pocket Trash". Começo amanhã, ou não, talvez depois de amanhã, talvez... sei lá quando. Aguardemmmmmm.)

26 comentários:

Fernando Sampaio disse...

Gabriel Garcia Marquez disse que não tinha saco apra ler Dom Quixote. Depois ele descobriu uma maneira de enfrentar o calhamaço. Deixava o livrão lá no banheiro ao lado do vaso e toda vez que ele ia lá dava uma lidinha...Leu o romance inteiro assim... Intelectual é assim mesmo.

Mal posso esperar o pocket trash...hahaha
Beijos querida.
Fernando

Marie Tourvel disse...

Cê vê, Fernando, querido, olha quanta idéia interessante sai de nossas cabeças pensantes. Podemos fazer uma série chamada "Pocket Bathroom", que tal? hahahahaha
(Cê veio antes da musiquinha, né? Depois ouve, tá bom?)
Beijos!

Philippe disse...

Realmente, o mais importante é o que será dito nas rodinhas. Hahaha. Estou curioso pra saber as suas dicas sobre o que os intelequituais devem dizer nas rodas de bilionários.

E sobre a literatura não formar caráter, também concordo. Uma coisa não implica outra, nem o contrário. Mas ler pode ajudar uma pessoa boa a tornar-se melhor, ou uma pessoa ruim a tornar-se pior.

Mas enfim, a série está ótima!!
Um beijo.

Marie Tourvel disse...

Oi, Philippe, querido. Isso mesmo, ler pode ajudar um bom ser melhor e um ruim ser pior. Imagine se o Efelentífimo resolve ler crássicos. Se já estamos perdidos...
Não podemos esquecer que os intelequituais terão que falar sobre essas obras com bilionários que tão aí para os crássicos, né? Os que estão aprendendo com a Marie não vão querer falar da Bruna Surfistinha, embora lembra bem a nota que pagou para ter com ela. hahahahaha.
Beijos!

Sabesselá Quem disse...

Oi Marie,

Você não imagina quão providencial foi seu "resumão". Eu herdei do meu avô cinco volumes do Cervantes. Capa dura... cor de vinho... bonitos... letra grande, ilustrações e tudo mais. Nunca venci a batalha dos cinco. rs... E não por desdéns, que não menoscabam meus bens... Foi preguiça mesmo, confesso.
"Pocket Trash", gostoso de falar. Sabe Marie, vou imprimir todos os seus pockets e fazer uma apostila pra mim. Assim eu decoro mesmo ou vira uma "cola" básica. Pode colar, não pode?! :)

Beijos!
:)

Marie Tourvel disse...

Tenho certeza que você não precisa colar, sabesselá. :)
Aproveite o que herdou do seu avô e comprove se meu resumão é bom ou não. Eu tive que ler na raça, apesar da preguiça, caso contrário papai ficaria muito bravo. E ninguém gostava de vê-lo muito bravo.
Eu posso dizer agora que sou uma engenheira que virou apostila. ;)
Beijos

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Marie,
estou siderado! O Cavaleiro da Triste Figura ficou todinho da foto, mas, então, a Menina não deu bola para o Sancho Pança? Não vale troçar só do lunatismo, o realismo, quando é mesquinho, também merece apanhar.
Beijinho muito grato e deleitado

Marie Tourvel disse...

Paulo, meu querido, eu dou uma bola tremenda para o Sancho, mas lembre-se que tenho que mostrar aos amigos bilionários o que vai rolar nas rodinhas dos intelectuais brazucas (sabes o que é isso? Não? brasileiros, bananeiros. ;))) ), por isso foquei muito mais no lunatismo, para que ficasse mais ´"pitoresco".
Obrigada a você por ter vindo por aqui. :)
Um beijinho.

JúliaML disse...

Marie !! :-))

Você não existe! Existe? :-))

o que hoje me fez rir!

abençoada por isso, amiga!

beijinho

Marie Tourvel disse...

Júlia, querida, o pior é que eu existo, sim. Tô bem aqui nessa cidade poluída e cinza chamada São Paulo. :)))
Fico tão feliz que te fiz rir. Você é uma amiga e tanto, isso sim.
Beijinhos

Léo e só disse...

Oi Marie

Desafio: Hamlet ou Rei Lear, outros doidões!

( sei que tira de letra.)

bas

Marie Tourvel disse...

Boa, Leo. Shakespeare é sempre bom. Acho que falarei do mais óbvio, Hamlet. Melhor ainda, falarei dos dois. Afinal, Shakespeare merece ser mencionado mais de uma vez. :)
Na próxima semana talvez fale de Proust. Ou não. Talvez o primeiro Shakespeare. Tô tão indecisa... hahahahaha
O pior é que eu terei de fazer a série "Pocket Trash" e não li o livro da Bruna Surfistinha. Tenho que ler, né? :))))
Um grande beijo e muito obrigada pela lembrança do velho Bill. ;)

Léo e só disse...

Sabe, vou te confessar, eu já li umas 30 página da Surfistinha.

EHhh, até que é legal nas aptes que interesam, mas os fatos narrados fora da cama, aha,sei lá, tosquinho, nè?

O boca, o lingüa. hehehehehe

abs

Marie Tourvel disse...

Pô, Leo, então vê se me ajuda, né? Se leu 30 páginas já está de bom tamanho. Tá decidido. O livro dela será meu primeiro "Pocket Trash", mas preciso ler ao menos esss 30 páginas. O que eu não entender, pergunto a você, tá bom? :)))))
Beijinho

filomeno2006 disse...

Un gran cartoonista brasileiro ha dibujado un Don Quijote de la Mancha " a vinhetas".......

Marie Tourvel disse...

Fala de Caco Galhardo, não é filomeno, querido? Se não me engano, foi ele quem fez isso.
Gostoso recebê-lo por aqui. Vem mais. :)

Beijos!

(Este blogue está mais intercontinental do que nunca. Caramba, e eu que pensei que eu poderia escrever qualquer coisa nesse espaço. Agora a Marie terá que se controlar e ser menos brega, né? :))) )

Frodo Balseiro disse...

Marie, quem não se sonhou com as "aventuras" de Dom e seu fiel escudeiro?
Sonhos impossíveis, moinhos de ventos, mulheres inatigíveis...
O que restou de tudo isso?
Sonhar os sonhos possíveis, viver nossa mediocre vidinha pós moderna, mergulhada em cinismo e depressão!
Hoje não estou muito bom para quimeras, dá prá notar...
Tudo isso não impede que lhe envie um grande beijo!
do Frodo

Marie Tourvel disse...

São maravilhosas as aventuras de Dom Quixote, né?
Mas não fique assim, Frodo, querido. Gosto de vê-lo sorrindo. Já faz um tempo que não estou bem, também. Por isso tasquei o Meu sonho impossível na figura do Snoopy ao lado. Esqueçamos de nossas mazelas por um breve período e mando meu melhor sorriso pra você, mesmo ele sendo bizarro. :)))
Beijos da Marie

ana v. disse...

Querida, esta série dos crássicos está cada vez mais imperdível! Vou fartar-me de brilhar nos salões com as tuas dicas, mas só quando for bilionária...

O Quijote está uma beleza... bem apanhado, Marie!

E acho que tens razão sobre a literatura não formar carácter e ser só um prazer. Li há pouco tempo uma entrevista de Rosa Montero em que ela dizia exactamente o mesmo: pode-se viver perfeitamente sem literatura, os livros não são essenciais, mas... aumentam o tempo de vida, porque nos fazem viver muitas vidas além da nossa! Gostei muito desta ideia, e agora lembrei-me dela ao ler-te.

Grande beijo, Marie. É bom vir aqui. :-)

Marie Tourvel disse...

Ana, querida, obrigada. Você é bilionária, sim. Bilionária em carinho e amizade. :) Isso é essencial.

Sempre pensei desta forma sobre ler, jamais verbalizei para não ter que entrar em debate com ninguém. Isso me dá muita preguiça. Até que há duas semanas fui a uma palestra do seu compatriota João Pereira Coutinho (por sinal, maravilhosa. Recomendo vivamente), que disse mais ou menos ísso. Aí resolvi escrever o que realmente penso. E o que Rosa Montero disse complementa meu pensamento. É exatamente isso.

Bom mesmo é ter vocês todos por aqui me ensinando um pouco mais e distribuindo esse carinho. Isso não tem preço, Ana. :)

Outro grande beijo!

Nando Nazareth disse...

Caríssima ($$$$) Marie,

O seu blog é muito mais intercontinental do que pensas. Pois eu o estou a ler (e reler)... (Acredite!) De Niterói! (Sim! Tem no Google!)
Leitor habitualmente silencioso (não precisa agradecer... rsrs), não pude evitar o pitaco desta vez.
Eu também tenho o verdão! Bunitu!
No entanto, espero que o seu bilhete ESTIMULE a leitura do Quixote pelos inteléquituais. Eles merecem. Talvez você pudesse inserir uma pequena nota dizendo que você só resumiu a primeira parte porque a segunda é imperdível.
Mas, não! Seria uma maldade. Borges perguntou, franzindo o nariz, na entrevista ao Roberto D'Ávila, mais ou menos o seguinte: "Quem lê a segunda parte do Quixote?" Aquilo é chato que arde! Facilmente (e felizmente) esquecida pelo brilho da primeira parte, que é o que há!
Também tenho uma sugestão sobre o próximo (não vejo a hora!) comentário sobre o livro da Surfistinha: não se deve deixar de mencionar que ela lia Foucault. Provavelmente na hora do expediente, se ela tivesse dois ou três clientes assíduos bons de cama como eu.
Um grande abraço e parabéns pelo blog do
Nando

Marie Tourvel disse...

Pois saiba que nem preciso procurar no gugól, já que passei muitas férias em Niterói, viu, Nando, querido. Durante minha infância. Na aborrescência era em Copacabana.
Acho que deveria ficar menos silencioso, que tal? ;)
Borges sempre tinha razão, não acha? Acho que não colocarei nenhuma nota, não. :)))
Putz, terei que mencionar o nome de Faucault por aqui. Isso é de doer, Nando. Ela poderia ler na hora do atendimento aos clientes um pouco de Borges. Garanto que o tal venenno do escorpião ficaria mais letal, não acha? ;)
Adorei sua visita e espero que volte sempre. E não fique tão silencioso. Adoro visitas. Não vê? sirvo até um bom vinho com espetinhos no repolho. :)))
Obrigada.
Beijos!

filomeno2006 disse...

El gran actor gallego Fernando Rey, encarnó al Quijote, en serie de TV de 1991........

Marie Tourvel disse...

Me conta se gostou, Filomeno, querido? Nunca assisti a uma encenação do Quixote. Adoraria. ;)

Beijinhos

filomeno2006 disse...

Encenaçao muito boa. ¿No existe Instituto Cervantes en la ciudad donde vives, que seguro tienen el DVD de la Serie "El Quijote" de Manuel Gutiérrez Aragón, con Fernando Rey y Alfredo Landa?
Bjs.

Marie Tourvel disse...

Pois vou procurar por aqui, filomeno, querido. Estou muito curiosa. ;)

Obrigada pelo carinho.

Mais beijos