11/03/2008

Time



Ela já não queria mais dormir tanto. Os sonhos já não vinham como antes. O objeto de sua saudade não aparecia mais como antes, amável, feições brandas. Agora ele aparecia em seus sonhos com uma espécie de garra sempre pronto a atacar. E em sua casa, supostamente um porto seguro, já havia um tigre verdadeiro soltando as garras. Ela já não tinha mais forças. Era diferente de há dez anos atrás. Há dez anos ela não esmoreceu, não desistiu. Agora é como se não tivesse mais forças para recomeçar. Aí resolvia dormir, dormir, dormir. Encontrava-se com o seu amor nos sonhos. Mas agora ela nem sonhar mais podia. Virava pesadelo. Então, ela resolveu ler, ler, ler, mas o sono chegava como há muito tempo ela não conseguia experimentar a sensação do sono chegando. Nos últimos dias o sono tomava conta dela. E estava sendo bom. Ela sonhava, ela chegou a se ver no mesmo lugar com o objeto de seu amor. Ele a tomava nos braços e a beijava. Mas ela não sabe o que aconteceu. Ao adormecer, agora, ela tinha sonhos ruins como se ele a quisesse maltratá-la mais ainda do que doía a sua ausência. Ela já não podia nem mais sonhar. O que lhe restava, então? Ela tinha que pensar em algo que a fizesse voltar a viver. Porém, nada tinha sentido. Nada do que planejava poderia dar certo. Não com a falta que sentia de seu verdadeiro amor. Ela decidia, então, que ia procurá-lo. Redimir-se dos erros, mas voltava atrás. Talvez ele nem penssasse mais nela. Talvez fosse tudo uma grande bobagem. Aí ela resolveu que deveria esperar a morte. Mas a morte não chegaria tão facilmente. E ela dar cabo da própria vida a levava até Cioran. Naturalmente, encontraria algo pior após sua morte. Ela sempre sorriu, continuava a sorrir. Era o único bem dela. O sorriso. De seus olhos caiam lágrimas incessantemente, mas ela mantinha o sorriso nos lábios pateticamente. Como que se o objeto de sua paixão enlouquecida viesse secar-lhe os olhos e beijar-lhe o sorriso.

Adendo: Paulo, meu querido amigo lá da terra portuguesa, aniversaria hoje. Um amontoado de momentos felizes pra você. É o que lhe deseja o diabinho Marie e o alter-ego dela, também. ;)

10 comentários:

Rose Marinho Prado disse...

Esse sorriso patético. Queria interpretar isso. Mas precisaria ser ótima atriz. Não sei se sou.

Mas gostaria e...com essa música. Por que escolheu isso? Ah!

Música antiga leva o drama aos anos 70.
Lembro de mim, assim, igual. Num tempo perdido que a música teima em resgatar.
Como humanos somos iguais!

Marie Tourvel disse...

Somos todos atores, Rose, querida. O sorriso patético, as lágrimas, a saudade... estamos sempre interpretando papéis. Não é assim que diz a psicanálise?
Escolhi isso a dedo. Vinha hoje de minha rotina diária logo cedo e liguei o rádio do carro. Tocava esta música e viajei psicodelicamente para os anos 70 quando eu era apenas uma garotinha que não brigava com o tempo e sonhava.
Somos todos diferentes, todos iguais.
Um grande beijo!

JúliaML disse...

lindo texto, Querida Marie, para o nosso amigo.Ele merece!

um beijo daqui para os dois!

Marie Tourvel disse...

Ei, Júlia, estava com saudades de você, querida.Foi a forma que encontrei para dar parabéns para o Paulo. :)
Um grande beijo.

Sabesselá Quem disse...

Oi Marie,

Uma forma bonita para dar parabéns... presentão pra ele!
"Como que se o objeto de sua paixão enlouquecida viesse secar-lhe os olhos e beijar-lhe o sorriso."
Como na história da Festa no Céu... "tibum era isso que eu queria!" Dizia o sapo. :)

Quanto tempo não escutava essa música... foi "floydi". :)

Beijos!


PS: ao Paulo um feliz aniversário com direito a festa no céu!

Marie Tourvel disse...

Sei lá eu se não deveria fazer um post separado para o aniversariante, mas foi a forma que encontrei para mandar os parabéns ao amigo, sabesselá.
O sapo. Eu sou o sapo, acho, sabesselá.
A música é linda e eu gosto muito de Pink Floyd e nunca havia postado por aqui. Faltava oportunidade. Encontrei uma. :)
Um beijo.

Sabesselá Quem disse...

Bom... então, com todo respeito, se você é o sapo eu sou a urubu. Assim, carrego você para a Festa no Céu dentro do meu violão. rs... :)
Vai ser floydi num céu pink.

Beijo!

Marie Tourvel disse...

Você jámais será um urubu, sabesselá. Você é uma querida. Eu adoro quando vem por aqui. Adoro seus comentários. Você sabe das coisas. ;)
Ouviu o outro floyd aí em cima? :)
Beijos.

Léo e só disse...

oi Marie

Posso pedir, assim, algum dia, ouvir a sua voz nesses textos.

Eu já falei que goste emuito da sua ;)

abs

Marie Tourvel disse...

Leo, meu querido, se eu ler um texto desses desabo de chorar... mas um dia faço isso, prometo. Você gosta mesmo dessa paulistana que só falta falar "orra meu, aqueles mano me faz cada coisa, viu."? E tudo isso com uma rinite das brabas. :)))
Beijos