4/21/2009

Underground

Respondo na medida do possível aos e-mails de alguns leitores que tem vergonha de comentar por aqui. Comentam vez ou outra. Eu entendo. Muitas vezes é melhor não comentar mesmo. Falamos muitas bobagens em comentários de blogues. E depois que a gente aperta o enviar não tem mais jeito. Ou tem. Teve um leitor que me enviou uma mensagem contando seu sonho ou quase sonho que teve comigo. Ele disse que estava no metrô. Entenderam? No METRÔ. E não era o metrô de Londres ou Paris. No metrô de São Paulo mesmo. Não me arrisquei a perguntar em qual linha estava. Metrô de São Paulo pra mim é como a lua. Gosto de vê-la ao longe. Ela é bonita e me satisfaz saber que existe, mas jamais gostaria de pisar por lá. Muito arenoso, o chão. Tive somente uma experiência com metrô na cidade. Sofri um seqüestro-relâmpago e roubaram todos os meus documentos e cartões entre outras coisas que fizeram que não vem ao caso. Demorei meses até tirar minha nova identidade. Incomoda-me ser um número. Poderia ter pago um desocupado qualquer para fazer a parte burocrática por mim, mas confesso que fiquei curiosa quando uma amiga disse que eu precisava passar por alguma espécie de catarse. Na época não entendi muito bem o que ela quis dizer com “uma espécie de”. Entenderia mais tarde quando resolvi entrar no tal metrô e me encaminhar a “uma espécie de” repartição pública –esses lugares que meu herói Nelson Rodrigues descreve tão bem, para a confecção de minha identidade. Fui. Num horário até tranqüilo. O tal metrô estava vazio, mas não sentei em suas poltroninhas duras. Me deu um quase asco, embora tudo parecesse muito limpinho e organizado como naquele filme de Jim Carrey, como era mesmo o nome? Truman, é isso? Tenho sérios problemas com os nomes dos filmes do Jim Carrey, já que suas caras e bocas são sempre as mesmas, feito um Zorra Total canadense. Na hora de tirar meu documento fiquei triste. A atendente, uma mocinha quase sem educação e com dentes amarelados, disse com palavras quase ininteligíveis que eu teria que colocar o nome de casada. Esqueci de ler o nominho dela no crachá. Melhor assim. Teria enxaqueca mais tarde e teria que tomar um comprimido de Creusaldina ou... deixa pra lá. Meu antigo era com meu sobrenome de solteira. O sobrenome de Monsieur Tourvel é muito bonito, imponente. Chega a ser aristocrático. Não uso o sobrenome de casada por culpa do Seu Nuno, um numerólogo. Ele disse há anos atrás que se eu utlizasse o nome de casada estaria fadada a viver no azar. Pelo sim pelo não, segui o conselho do Seu Nuno. Ele era um velho, muito velho e ficava alojado num escritorinho barato da Brigadeiro Luís Antônio. Já deve ter morrido, o Nuno. A partir da data da nova identidade carrego novamente o fardo do azar. Adieu, Nuno. Mas eu falava do sonho que o leitor teve comigo no metrô. Ele disse que pegou o trem e conseguiu sentar-se. Já não gostei dessa parte de se sentar naquela poltroninha que deve cheirar Palmolive misturado com perfume Contém 1 grama. Mas continuei a leitura. Ele disse que estava cansado e que adormeceu. Sem comentários. Mas, vamos lá. Morri de medo que ele contasse que inclinou a cabeça no ombro de alguém ao seu lado. Eu chamaria isso de quase falta de pudor. Ele disse que despertou por culpa de alguém que se sacudiu nele e lembra nitidamente que estava começando a sonhar com minha boca. Com meu sorriso. Com a foto aí ao lado com o dedo nos lábios. Ele disse que precisava me contar isso. Não precisava, não. Se quiser sonhar comigo, pode. Pode até contar. Desde que saiba omitir detalhes sórdidos, se houver. Marie não é mulher de ouvir que ela estava com um batom vermelho carmim e fazendo biquinhos. Nem em sonho. Ele diz em sua mensagem que resolveu me contar porque ficou impressionado com o quase sonho. Eu não. Não fiquei nem um pouco. Eu, por exemplo, sonhava vez ou outra com um blogueiro aí que mantinha uma foto de um personagem qualquer em seu orkut. Ai, orkut... tão cafona o orkut. E eu sonhava que ele bebia Ki-Suco sabor uva. Nem por isso contei a ele. Não contaria a ele que nas entrelinhas este sonho queria dizer que ele não passava de um Ki-Suco sabor uva. Nada mais que isso.
Da próxima vez que quiser sonhar comigo, vá até o Espaço Unibanco de Cinema. Agora que o Unibanco virou Itaú, já não se tem mais os comunistas da família Moreira Salles tomando conta daquilo. Por lá passam filmes iranianos e tem uma poltroninha deliciosa almofadada e aconchegante. Enquanto a chatérrima película roda você pode tirar uma sonequinha e sonhar com meus lábios sorrindo e com o dedinho na boca. Desde que o dedinho na boca signifique silêncio.

Música para leitores que sonham comigo (porque dentro do bombom há um licor a mais, como diria o quase filósofo, quase cantor, quase anão e quase pirobo Byafra. E olha que o "Y" deve ter ido pra conta do numerólogo.):



Voar, voar... ai, ai...

ADENDO: Temos no Porta do Vento mais um Pocket Classic. As Viagens De Gulliver" do batuta Swift. Swift sempre foi um dos meus favoritos. E você já sabe, leitor, querido, quando escrevo sobre os meus favoritos parece que nada dá certo. Não fui muito feliz. Se repararem bem no meu texto parece até que Gulliver estava em outras viagens... uhu!

Música para o meu Gulliver meio Bob Marley:

20 comentários:

Fernando Sampaio disse...

Byafra "quase" pirobo?

Marie Tourvel disse...

É que não quis desiludir as Creusas, Fernando. Eu seria linchada na Brigadeiro Luís Antônio. Embora preferisse na Brigadeiro Faria Lima pra ser mais chique e dramático. Imagino você chorando por mim... ;)

Bisous, meu amigo querido.

Mike disse...

Uff! Puta post [aqui deste lado do Atlântico acho que posso usar esta palavra neste contexto :)]. Nem sei por onde começar, mas sei por onde acabar. (risos)
Marie, fala para esse seu comentador "metrô sexual" que saia da frente que a fila quer andar. (mais risos)

Marie Tourvel disse...

Uff! Puta post de comprido ou puta post de bom? :)))))

Seu recado ao comentador está dado, Mike, -ele sempre lê.
Ouviu, comentador que sonha comigo? A fila anda. E depois, podem sonhar comigo lá em Portugal, né? Ai, Portugal! ;)

Beijocas, querido.

Mike disse...

Puta post, bom pra cacete! :D
Ai, São Paulo! (suspiro)

Marie Tourvel disse...

Ai, Mike generoso e lindo!

Mais beijos!

ana v. disse...

DE-LI-CI-O-SO post, Marie!
Não admira que os teus comentadores sonhem contigo...

beijos, linda.

RosA disse...

Acho que vcê encontrou o tom certo. Está surgindo uma coisa muito boa e alinhada nestes posts.

Eu detesto a Marie , um entojo! Que mulher!

...........Aplaudo o estilo. Um pouco "Boquitas pintadas", do Puig...Um pouco as cartas do relações perigosas.
Odiosamente incrível essa Marie.

Marie Tourvel disse...

Embora tenha muitos componentes bananeiros, Ana, querida, acho que deu para entender, não é?

Que bom que gostou. ;)

Beijocas

Marie Tourvel disse...

Essa Marie não vale nada, né, RosA? hahahahahahahaha
Um entojo mesmo. Mas é gostoso escrever isso. E teve realmente um comentarista que sonhou mesmo. fazer o quê? :)))))))

Beijocas!

Frodo Balseiro disse...

Pois é Marie...blogueiro com personagem aí é ksuco com gosto de uva!!!!!!!
que que é isso....
beijos

Marie Tourvel disse...

É isso, Frodo, meu querido. Tem blogueiro com aura de monstro sagrado que não passa de Ki-Suco de uva. Insosso, se é que me entende. ;)
Ao contrário do Frodo Balseiro, que é como um vinho bom. :)

Beijocas!

shi disse...

marie, nem vou comentar o texto, pq eu já o fiz... rs. mas não pude deixar de deixar (eita) aqui registrado que eu mesma já sonhei contigo, e justamente com esse sorrisão ali do lado. na época escrevi, ia postar no puti, mas perdi o bonde e desisti... rs. vou ver se acho o texto e te mostro, tá? deixa o povo sonhar, manazinha, faz parte do nosso "ser bananeiro" :-P
bjão!

Marie Tourvel disse...

Isso aí é só ironia, ShicaMaria.
Jura que sonhou comigo? Ah, por favor, me conte tudo e não esconda nada. Pode mandar um e-mail, combinadas? :)

Beijinhos

RosA disse...

Ela diz coisa com coisa, não é apenas um purgante. Eu odeio Marie. Mas ela tem consistência, o texto, verossimilhança .
................

Essa história de ela achar tudo cafona! Daí eu ver que é aprisionada no olhar. Travada, rotulando aqui e ali.
Ocorre que não é nada cega, ainda que às vezes.

Marie Tourvel disse...

Ela é uma rotuladora, essa Marie, RosA. Ela se acha, talvez, a última coca-cola do deserto. ;)

Beijos!

Raquel disse...

Swift? Estou precisando de um ensopadinho de crianças nestes dias que se avizinham mais friotes...

vou atravessar o Atlântico, agora mesmo! beijos

Marie Tourvel disse...

Vamos fazer as viagens do Gulliver, Raquel, querida. ;)

Beijos!

Zulmira disse...

O Seu Nuno não morreu. Está vivinho. Ele é 10!

Marie Tourvel disse...

Como assim, Zulmira? Me conte tudo e não esconda nada. Ele era bem velho quando o visitei há uns 13 ou 14 anos. Pensei que ele tivesse morrido, sério. Bom saber que ele está vivo. Pedirei uma revisão no meu nome. Quem sabe Marie Tourvel Benjor não fica bom, né? ;)

Volte sempre, querida.

Beijos!